NADA MAIS POR HOJE.

Ilustração e frase de Aline Beuttenmüller.
Nessas dicas de Facebook, aleatórias, de um cotidiano-NewsFeed, fui bater num texto do fim do ano passado n’O Globo. É uma reportagem bela, de dar nó na garganta.
Livros com dedicatórias, lembranças das vidas que os tomaram por prateleira e depois se desfizeram; ou a ligação foi desfeita. A grana encurta, as coisas terminam, a morte aparece. E os livros, com os recados entre amigos, ficam. Não dá pra apagar. E terminam em novas prateleiras, dos sebos.
As histórias, que ficam e existem por causa dos livros, passam a ressignificar nas mãos de quem as desconhece. Só os livreiros e colecionadores se importam. Tem até caixinha pra guardar os ingressos de cinema, contas, cheques, flores, usados para marcar páginas.
A reportagem não julga, mas fica nas entrelinhas a dor que é ver gente se desfazendo de livros foram comprados e dedicados a elas. Parece, tantas vezes, que dar um livro é mais importante pra quem dá do que para o que recebe. Mas não é sempre. Como disse, às vezes a morte chega e as bibliotecas são desfeitas, leiloadas, passadas a frente. E as histórias, os bilhetinhos, as dedicatórias vão junto.
Por fim, parece uma reportagem sobre um orfanato, um cemitério. De certa forma, é isso mesmo que os sebos são. Uma espécie de purgatório literário, para onde os livros vão e esperam seu julgamento. Junto a tudo que respiraram, às traças que conviveram, o bolor que os tomou, ressuscitam na cabeceira de alguém que se importa de novo.
A dica da reportagem foi do colega Cadu Vieira, que é jornalista formado em letras.
Dos encontros com Haneke, sempre ficarão as dores. As dúvidas que alguma vez nos tomaram, sobre seu possível maniqueísmo flutuando pelos fotogramas, se convertem na percepção de que são as suas dores. Se o diretor costuma filmar pesadelos e mostra-los como se fossem realidade, até que a montagem os entregue, é porque a vida (o cinema, as histórias a se contar) pra ele é isso: pior que os pesadelos. Dela, não acordamos. Daí, este “Amor”, onde o que assistimos é a construção dessa situação para onde George Laurent não gostaria de ter sido acordado. Pouco sabemos sobre ele e Anne. Como sempre, no cinema de Haneke, não há apresentações. Somos, na sala de cinema, na sala do casal, esse olhar que chega e descobre-se chegando, sem conhecimentos prévios. E somos introduzidos ao mundo dos casais sem as linhas de roteiro que para isso costumam servir. Lembremos de Caché. Outro George, outra Anne. A mesma ausência de apresentações, a mesma interrupção do cotidiano. Apenas estamos na sala, eles apenas são. E o passado brota das prateleiras, dos hábitos, das faces. Sim, as faces são um segredo de Haneke. Assim, nada será mais impactante que os planos em que George sutilmente se assusta ou se surpreende com Anne. Nada será mais doloroso que Anne e a degeneração gradual que passa. Haneke, que já admitiu publicamente que tem interesse na provocação do espectador sobre a realidade, coloca-nos diante de histórias que sempre, sempre, são apenas a ponta do iceberg. Assim, ele nos apresenta “Amor” e provoca reflexões que não cabem aqui, neste texto.
Av. Paulista é paixão a cada esquina. A cada poste.
Então, duas crônicas sobre elas: as mulheres de São Paulo. A primeira, de Xico Sá é de hoje e hiperlinkou a segunda, de Marcelo Rubens Paiva, do ano passado. Um trechinho de cada, pra aquecer.
Pode ser que tenha sido diferente antes de chegar por aqui. O que vi dos anos 1990 até agora é o avesso completo. A mulher de SP, em um panorama geral, é uma elegância só.
Classe em todas as classes da babilônia. Da ponte para lá e da ponte para cá.
Leia a crônica completa, de Xico Sá.
Olhando o chão, pois já tomou muitos tombos por causa das calçadas irregulares da cidade, uma anarquia de desníveis, pedras, buracos, pisos sem um padrão seguro para o seu caminhar apressado de botas, meias e pernas finas.
Rebolar?Fora de questão.
Olha para o chão e se lembra do que esqueceu, do quanto falta, do que faz falta, do que está errado.
A garota de São Paulo é perfeccionista, gosta de estar ajustada, como as engrenagens de uma indústria. Quer a precisão da esteira de uma linha de montagem.Passa e olha para o chão, pois pensa nas atividades, nos prazos atrasados, nos compromissos da semana, na agenda do mês.
Leia a crônica completa, de Marcelo Rubens Paiva.
Parabéns, São Paulo.
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A dica que gerou a dica foi de Candy Ferraz, lá no feicebuque.
Das prateleiras de filmes da Americanas do Manaíra Shopping:
Cena 1: grupo de adolescentes-saindo-da-adolescência, meninos e meninas, passeiam pelas prateleiras de DVDs e Blu-rays. Numa delas, atentam para o disco de “Planeta Terror”, de Robert Rodrigues. Um dos meninos segura o filme e com empolgação dispara para um outro:
- Boy, esse filme é muito bom!
O amigo a quem ele direcionou o comentário não reage com empolgação equivalente. Para convencer, o primeiro segue em frente.
- Boy, olha isso! – completa, apontando para a capa do DVD em tom de quem não viu mesmo o filme. – A “nêga” tem uma metralhadora na perna. O filme tem que ser f@#*!
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Cena 2: duas mulheres que já passaram dos vinte-e-tantos-quase-ou-mais-de-trinta procuram filmes, no esquema loja-de-quadrinhos que as prateleiras da Americanas proporcionam. Puxam filme a filme para frente até chegar ao último da linha e seguir para a próxima. Uma delas puxa assunto com a outra, quase que pensando em voz alta:
- Olha, com final alternativo. Mas eu só queria final diferente se fosse um que ele não morresse…
A amiga se aproxima e pergunta de que filme ela está falando.
- Titanic! – explica mostrando a capa. – Essa edição tem final alternativo mas só queria um se fosse com ele sobrevivendo. Não sei que amor é esse que deixa o outro morrer – conclui. Como se faltasse terminar o argumento, começa a imitar uma voz feminina, algo que deveria ser a Rose do filme. – Ela diz “ah, eu te amo!” e deixa Leonardo Di Caprio congelar. Tsc.
A auto-ajuda da semana que calhou de ser postada no Dia do Amigo. Uma sexta-feira feliz a todos ;)
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Amigos, melhor é gostar com custo do que gostar “de graça”.
Não se descobre isso fácil, é preciso deixar claro, mas não tem comparação. Não mesmo. Essa história de “gosto de você, de graça” é furada. Quem gosta de graça também desgosta fácil assim.
Gostar de graça é meio que ser apressado; ficar na superfície e curtir os sorrisos, os docinhos, a simpatia. É ficar satisfeito com uma possível grande empatia inicial e nem mesmo pisar o suficiente no território, pra não correr o risco de descobrir que tem um espinho aqui, outro acolá.
No gostar com custo já se sabe que se relacionar, de verdade, é processo trabalhoso. Sabe que, se gostar, também terá de estar com luvas prontas – sim, pra lidar com os espinhos. [A princípio, estou falando de amizades, mas o resto também cabe aqui].
Gostar com custo é insistir. Abrir o jogo antes que fique tarde e se desgoste de graça. Um rumo terrível, convenhamos. Nada pior do que gostar de alguém com custo e deixar de gostar, assim, por motivo muito pequeno.
Isso, por sinal, é coisa comum hoje em dia. Fica a dúvida: se desgosta mais rápido do que se gosta ou é ao contrário?
“Há poucos silêncios tão dolorosos tanto quanto o seu próprio, depois de uma crítica sincera vinda de quem gostamos”Lembra um pouco aquela coisa de adolescente que diz “eu te amo” por tudo. Porém, se a geração dos 20 e tantos anos de hoje é lotada de gente vivendo adolescências tardias, a equação funciona: tem gente demais dizendo “eu te amo” por nada. Quem gosta com custo aprende que um eu te amo, sincero, demora. Demora porque amor até pode ser de graça, mas fazer dele algo contínuo e presente, custa.
Custa porque dá trabalho abrir mão e, ao que me parece, é muito disso que significa de fato, amar – amigos, amigas, namorada, pai, mãe, filhos. Aprende-se com dor a gostar com o “ainda que”, “independente de”, ou “mesmo se”.
Gostar com custo é pra gente que se permite mudar – pra melhor – todo dia. Só assim vai se conseguir encarar todo o trabalho que é melhorar. Ouvir o ruim sobre si e calar se fizer sentido. Ouvir um não e entender. Sim, porque há essa mania incontrolável de discordar da crítica sobre si, apenas porque se faz necessário ter um tanto de orgulho e se defender.
Há poucos silêncios tão dolorosos tanto quanto o seu próprio, depois de uma crítica sincera vinda de quem gostamos. Melhor, sem dúvida, que venha de quem a gente gosta. Especialmente quando a outra parte sabe que somos desses que tentam melhorar um pedaço todo dia e aguentam o tranco. Nessa de querer bem, a gente não critica…sugere. Já não se engole seco, nem se replica por mania – é pensar duas vezes e circular o diálogo.
Veja que gostar de graça não é de todo mal. Tem gente que esbanja um nível de carisma apaixonante que faz impossível o não “gostar de graça”, rapidamente. Exagero aqui para que se valorize o que me parece importar mais: não se perder nas superfícies da simpatia que se constrói pra estabelecer certos status, impressões e presenças. Não fiquemos nessa.
A todos os que gostam com custo e hoje me cercam, obrigado pelo aprendizado. Os puxões de orelha, sugestões e diálogos podem até dar trabalho inicial, mas se desdobram muito bem depois. Afinal, a gente aprende mais com quem gosta de nós independente dos custos, do que com os que gostam “de graça”.
“As coisas se constituíram assim…”. “Constituíram…”. Usaram essa expressão comigo há algumas semanas e não consegui me desgrudar dela. Talvez esteja mais apaixonado pela sonoridade do que pelo que ela pode mudar se comparada a outras, sinônimas. Soa diferente falar que as coisas se construíram assim, se formaram assim. Mas o que quero mesmo dizer é que nessa frase existe alguma redescoberta sobre o passado sempre que penso nela outra vez. Dizer “as coisas se constituíram assim” é olhar para os acontecimentos com mais leveza, como se os erros tivessem que merecer apenas atenção suficiente – não pouca, que nos faria cair na ilusão, ou muita, nos levando uma culpa desgastante. O certo, mesmo, é que faz uma diferença danada levar as coisas com mais leveza.
“Serenidade é um movimento de dança diante do caos”Serenidade é um tipo de benção que deveria ser considerada mais seriamente. A gente enxerga melhor algumas coisas e outras a gente nem nota, só porque não vale a pena dar atenção àquilo. Não deixa de ser um movimento espiritual progressivo que se faz: às vezes vai ser necessário “transcender” pra escapar e se manter longe a fúria batendo à porta. Aí se canta até com mais propriedade que “sereno é quem tem a paz de estar em par com Deus”.
Não se trata exatamente de um lugar para estar e que se consiga habitar toda hora – isso a gente tem certeza que não se alcança, pelo menos não aqui, agora. Mas visitar com certa frequência cai bem, muito bem. Diferente de ser calmo ou de obedecer certas rotinas que demonstram fisicamente este sentimento, serenidade é mais um movimento de dança diante do caos. Esbarrar no caótico toda hora (não é assim, hoje?) deveria funcionar mais como aquela contemplação em “Melancolia”, do Von Trier. É escolher entre ser sugado pela gravidade do planeta prestes a esbarrar no nosso ou só respirar. E parar par apenas respirar, hoje, não é uma posição de passividade frente ao turbilhão. Como ouvi um tempo atrás e ainda carrego comigo: se ficar estressado resolvesse, era um mundo belo que teríamos hoje.
É desse scary world que a gente morre de medo. De quem não tem receio de pisar no outro pra garantir o seu (esqueça os políticos, tô falando de gente), de quem garante muito que seu juízo é sempre acima do bem e do mal, por motivos inexplicáveis (ou não). A gente se assusta toda hora com as atrocidades do outro, tão perto de nós. Ou mesmo porque nós agimos assim, sem pensar. Confesso que deve me faltar mais “transcendência cristã” pra suportar isso. Se as vivências e sentimentos muitas vezes andam frágeis neste sentido, lembro da música que talvez tenha sido a mais espiritual de todas que ouvi nos últimos meses. É nesse tipo de confiança numa eternidade (atemporal, infinita, só pra lembrar), cantada por Marcelo Camelo, que parece valer a pena apoiar a busca pela serenidade: “já não tenho medo do mundo, sou filho da eternidade”. O eterno sereno que a gente tanto quer, porém, passa e a gente não vê. Às vezes, as coisas se constituem assim, mas não é por isso que elas devam ser assim pra sempre.