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“Mama” é fabular (um comentário não tão rápido, mas superficial)

Ainda que fique perdido em certos padrões dos mais frágeis filmes de horror, Mama acerta com certa destreza quando se deixa levar por seu lado fabular.

É possível pensar em O Labirinto do Fauno, por razões óbvias (Del Toro produz o filme), mas também vem à memória A Dama na Água e até Vinil Verde, curta de Kléber Mendonça Filho (me permitam a fluência maluca dos pensamentos…).

O tom, que se apresenta inicialmente como um horror tradicional, começa a se desdobrar em um conto fabular, que brinca com nossa dúvida até que chegue ao clímax. E é justamente nele onde mora o perigo: tal qual no filme de Shyamalan (A Dama na Água) será difícil para a plateia crer, já que não está acostumada à fórmula. Talvez o estranhamento seja necessário, mas…

A audiência (baseado nos comentários que ouvi ao fim da sessão) parece aguardar ansiosa por uma grande reviravolta – seja ela uma pegadinha ao modo Jogos Mortais ou no mínimo algo meio Scooby-Doo. Algo que compense os sustos, como um biscoito que premia o ratinho na caixa de estímulos de Skinner.

E assim passarão despercebidas as duas referências a Hitchcock que o filme apresenta: quando vemos a câmera enquadrando os óculos de Victoria para mostrar um detalhe (Pacto Sinistro, também presente em Minority Report), ou quando o Dr. Dreyfuss usa o flash da câmera fotográfica para achar a ameaça (Janela Indiscreta). Ainda que as homenagens estejam lá, de Hitchcock se tem quase nada de fato, já que o filme se baseia mesmo num apanhado de sustos tolos, quando tem às mãos um terror psicológico muito mais cativante.

Assistido na sala 2 do Cinépolis.

Vale assistir ao curta “Mamá”, que deu origem ao longa que hoje está em cartaz. Ele tornou-se uma cena do filme, feita de forma praticamente idêntica, mas mostrando que transformaram o material anterior em algo novo e distante do atmosfera claustrofóbica que Del Toro define na apresentação antes do curta em si:

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Dos encontros com Haneke

Dos encontros com Haneke, sempre ficarão as dores. As dúvidas que alguma vez nos tomaram, sobre seu possível maniqueísmo flutuando pelos fotogramas, se convertem na percepção de que são as suas dores. Se o diretor costuma filmar pesadelos e mostra-los como se fossem realidade, até que a montagem os entregue, é porque a vida (o cinema, as histórias a se contar) pra ele é isso: pior que os pesadelos. Dela, não acordamos. Daí, este “Amor”, onde o que assistimos é a construção dessa situação para onde George Laurent não gostaria de ter sido acordado. Pouco sabemos sobre ele e Anne. Como sempre, no cinema de Haneke, não há apresentações. Somos, na sala de cinema, na sala do casal, esse olhar que chega e descobre-se chegando, sem conhecimentos prévios. E somos introduzidos ao mundo dos casais sem as linhas de roteiro que para isso costumam servir. Lembremos de Caché. Outro George, outra Anne. A mesma ausência de apresentações, a mesma interrupção do cotidiano. Apenas estamos na sala, eles apenas são. E o passado brota das prateleiras, dos hábitos, das faces. Sim, as faces são um segredo de Haneke. Assim, nada será mais impactante que os planos em que George sutilmente se assusta ou se surpreende com Anne. Nada será mais doloroso que Anne e a degeneração gradual que passa. Haneke, que já admitiu publicamente que tem interesse na provocação do espectador sobre a realidade, coloca-nos diante de histórias que sempre, sempre, são apenas a ponta do iceberg. Assim, ele nos apresenta “Amor” e provoca reflexões que não cabem aqui, neste texto.

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“O Som Ao Redor” hoje na Mostra Noite de Estreia

Já não é notícia nova, para quem acompanha o evento no Facebook. “O Som ao Redor” entrou na programação de última hora, no lugar de “Exercício do Poder”. Fogos de artifício! Esperamos há muito pelo filme e agora teremos três sessões dele. Confira a programação completa, agora atualizada. Fique atento: “O Som ao Redor” tem sessão hoje, às 21h.

Para quem assistir ao filme, vale dar uma lida depois no panorama histórico feito por Zanin. O crítico levanta filmes que marcaram a cinematografia nacional analisando o Brasil. Saiu também uma Ilustríssima dedicada ao filme, que eu ainda não li.

Assisti “Febre do Rato” no domingo. O filme me tirou o chão durante todo o primeiro ato. Uma câmera que registra o Recife num olhar diferente, com esse poeta inquieto, cheio de pretensão. Ainda que os diálogos apurados sigam por todo o filme, fica chata a pretensão do poeta, o bundalelê gratuito e constante, além de não conseguir definir o território (ou transitar melhor) entre ser filme “de política” (diferente de filme político) e filme de amor. Depois de como termina, você repensa com calma o começo. Preciso rever, mas ainda acho minimamente válido. Nas leituras, tenho dificuldade em analisar a Febre dentro da obra de Claudio Assis, porque ainda devo “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”. Uma hora se resolve. Ou não.

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Intocáveis (Olivier Nakache e Éric Toledano, 2011)

É necessário começar afirmando que o trailer deste filme o vende quase como um qualquer-coisa-enlatado. Não é por aí. “Intocáveis” e seu humor áspero e seu descompromisso em “parecer bonitinho” me remeteu direto a certos trechos de “Escafandro e a Borboleta”, que vi apenas neste ano.

As opções em mãos poderiam levar facilmente a dupla de diretores às soluções fáceis para uma construção piegas da narrativa: contato entre riqueza e pobreza; a perfeita capacidade de andar e a completa incapacidade de se mover, do pescoço pra baixo; a França tradicional e culta diante dos imigrantes africanos com seus costumes e “ignorâncias”.

E ainda que se permita a tantos pequenos clichês, “Intocáveis” é muito maior. É lição de vida sem querer ser, justo porque zomba dos sermões, dos discursos programados para salvar – daqueles candidatos ao cargo de ajudante que, com respostas prontas, são pós-graduados em auxílio aos deficientes. Eles sentem pena – justo o que Philippe não precisa.

Claramente interessado nesta dinâmica de não soar perdido em algum didatismo sobre “como viver melhor no caso de você se tornar tetraplégico”, o filme até carece de melhor conflito, para um clímax mais forte. As resoluções são simples e às vezes nem a sentimos adequadamente – como a separação momentânea entre os dois, por exemplo. O que vale observar, porém, é que justamente esta fórmula “grande conflito” seguido de “grande retorno” é típica do cinema enlatado e podemos viver um pouco sem ela.

A cena inicial de “Intocáveis” revela muito sobre o significa a relação entre os dois: Driss e Philippe tornam-se comparsas. Ao fim, sabemos do que fogem. Não é da polícia ou dos medos, mas da vida. Não no sentido de negar a realidade, mas fugir em direção à afirmação de que pode-se, às vezes, transcende-la, indo sem rumo, focado em apenas respirar a vida que realmente importa.

Vi “Intocáveis” no Festival Varilux, em cartaz no Cinespaço. A sessão é digital, mas ao menos está satisfatória (ao contrário do que vem sendo as experiências mais recentes no multiplex). Há uma última sessão do filme nesta segunda, às 18h. Confira a programação completa com trailers.

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Rápido e Rasteiro: MIB³ e O Virgem de 40 Anos

O Virgem de 40 Anos (Judd Apatow, 2005)

Andy (Steve Carrel) em uma das cenas onde o cenário o faz parecer um adolescente deslocado

Excelente retornar a Judd Apatow e perceber mais riquezas em “O Virgem de 40 anos”. Foi nesta primeira revisão que notei novos detalhes sobre a caracterização de Andy, brilhantemente interpretado por Carrel. Além daquela construção simbólica nos action figures, que já mencionei em outro post, é curioso como em duas cenas a câmera apresenta claramente Andy como um adolescente deslocado. Numa delas, ele acompanha a filha de Trish a uma espécie de terapia de grupo e por lá se depara como vaginas de plástico, dessas para aulas de biologia. Vemos Andy por trás da mesa, de joelhos, observando tudo como se fosse um garotinho encantado como o mundo. Numa segunda cena, dentro de um banheiro com papel de parede bastante infantil, todo cenário cresce e fica gigantesco ao seu redor, numa segunda construção para que ele pareça um adolescente. Pequenos detalhes, pequenas riquezas do cinema de Apatow – que merece toda nossa atenção. Ele vem aí, no fim do ano, com uma sequência de “Ligeiramente Grávidos” (outra pérola).

MIB³: Homens de Preto 3 (Barry Sonnenfeld, 2012)

História sem graça de ponta a ponta. Nada do grotesco e inusitado que guardamos daquele primeiro e divertido filme está por aqui. Simples: mais uma dessas sequências desnecessárias ao cinema. Algumas pouquíssimas risadas dão o alívio pra não considerar um desastre completo.

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Os Vingadores (Joss Whedon, 2012)

Os Vingadores em ação, pelas lentes de Joss Whedon

Espetáculo, de ponta a ponta

Esse divertido mundo do cinema patriótico. Vingadores é isso: a América se reerguendo e dizendo que está pronta para qualquer ameaça. Se não são mais os terroristas, pode ser a crise econômica ou outra coisa qualquer. Está pronta com sua tecnologia (Stark, Gavião), com seu patriotismo e postura de liderança (Capitão América), com uma força explosiva e incontrolável (Hulk). Não quero dizer (seria precipitado) que o filme se posicione totalmente assim, com metáfora redondinha sobre algo (América de hoje), mas é impossível não percebe-lo no contexto de hoje sem notar a força que tem e os discursos que propõe. Ainda mesmo que o filme se defendesse como inocente de tal postura, seria curioso o Nick Fury de hoje ser negro e começar a convidar os salvadores do mundo com um discurso que admite os erros do passado, mas espera um posicionamento vigoroso contra as ameaças atuais.

“Os Vingadores” é uma pérola de diversão blockbuster. O filme é um espetáculo, de ponta a ponta, trazendo personagens já construídos em um conjunto de filmes anteriores e sem a necessidade de apresentações. Apenas continuamos a conhecê-los, agora observando os confrontos de seres que, no background de cada um consta um tópico que diz: “salvei o mundo”. Nesta continuidade, por exemplo, o inimigo Loki me pareceu muito menos enfadonho que em “Thor” e bem mais rico em seus discursos sobre governo, liberdade e poder. Curioso até como que, em Asgard, seu elmo com dois grandes chifres nada passa disso. Na terra, porém, na primeira vez que aparece, matando e impondo autoridade, o mesmo elmo simboliza claramente o mal diabólico contra a civilização ocidental (no cinema americano o mundo só tem um lado, afinal).

Loki e seu simbolismo no contexto ocidental: chifres e o fim da liberdade

Para quem não acompanhou a história desses personagens a partir dos quadrinhos, fazendo do filme uma experiência narrativa mais ampla, “Os Vingadores” proporciona uma amplitude essencial: as histórias de cada um se conectam através das décadas e se completam na missão comum. Isso tudo me parece assim um trabalho de roteiro bem realizado por Joss Whedon, diretor e co-roteirista do filme. O texto é satisfatório na maior parte do tempo, também passeando entre o piegas (mas necessário, afinal é pipocão e filme de super-herói) e o preciso (as falas de Loki, as tiradas de sempre de Tony Stark).

Um dos maiores acertos de Whedon é conseguir fazer com que os efeitos especiais sejam praticamente “invisíveis”Whedon (numa olhada superficial de quem viu o filme apenas uma vez) de certa forma realiza uma espécie de mistura entre o trabalho de Jon Favreau (no primeiro “Homem de Ferro”) e Joe Johston (de Capitão América) – claramente os melhores filmes desse universo “Avengers” que estabeleceu. De Favreau ele pega o humor das tiradas, das gags (Hulk e Thor, perto do fim, me renderam uma garagalhada que há tempos não dava no cinema). Como Johston, Whedon filma a ação com classe e o desejo de que ela seja clara. Parece até uma resposta direta ao cinema de Michael Bay: um grande monstro robótico e extraterrestre, destruindo prédios e tudo mais, sendo filmado com planos que duram mais do que 1 segundo. Por sinal, o uso do 3D no filme foi melhor do que o que esperava. Não é desnecessário e, especialmente no trecho final, me parece fazer uma boa diferença na imersão, de tão bem utilizado.

É de uma beleza plástica quase sem precedentes nos filmes de super-herói, o passeio da câmera e a montagem no trecho em que Loki (Tom Hiddleston seria o melhor ator em cena?) invade um prédio na alemanha. Digo quase porque lembro com carinho do único acerto de Zack Snyder em “Watchmen”: o comediante lutando pela vida em seu apartamento, ao som de “Unforgettable”.

Um dos maiores acertos de Whedon em seu filme é conseguir fazer com que os efeitos especiais sejam praticamente “invisíveis”. Eles não estão lá para serem notados, mas sim para dar suporte à narrativa e aos anseios do diretor para a audiência. Este talvez seja um dos maiores méritos para quem trabalha na área de efeitos visuais: seu trabalho, de tão bom, não é mais notado que a cena, que a história. As cenas de luta, sempre baseadas em lógicas de efeitos especiais, me tiraram o fôlego grande parte das vezes e isso é impressionante.

Se o final fica com cara de apagadinho, ao menos a expectativa de uma sequência empolga bastante. Queira o bom Deus que Joss Whedon continue acertando na sequência. Ele já foi confirmado para o próximo filme e parece interessado em fugir da fórmula inicial. A gente se fala em 2015.

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PS(1).: o diretor parece ser tão apaixonado por Scarlet Johanson quanto todos os nerds da plateia (o blogueiro aqui, incluso). Concordam?

PS(2).: incrível como as cenas de gags do Hulk são bem dirigidas, fazendo referência a um estilo quadrinesco. Hulk foi um dos únicos super-heróis que acompanhei nos quadrinhos por um tempo e até mesmo o estilo de humor adotado faz parte da linha que se seguia nas revistas.

Visto no Cinespaço (Mag Shopping) em 3D.

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Piratas Pirados (Peter Lord e Jeff Newitt, 2012)

Os "Piratas Pirados" com seu humor nonsense

Não bastando apenas o delicioso humor nonsense que passa por praticamente todas as gags de “Piratas Pirados”, o filme ainda tem uma história no mesmo rumo. Se a exibição na sala 1 do Cinespaço não tivesse sido tão ruim no quesito sonoro, talvez o filme crescesse um pouco mais no meu gosto. O som estava muito baixo. Cheguei a ir pedir ao projecionista que aumentasse o volume e mesmo assim não foi resolvido – o que afeta bastante a experiência.

Praticamente todo o humor realmente gira em torno do inesperado, seguindo a escola cômica inglesa, obviamente. Isso gera crianças sonolentas e pais frustrados, sem dúvida. Fica a pergunta: o marketing do cinema de animação vai girar pra sempre em torno do público infantil até quando não se deve? Até mesmo os trailers que passam antes da sessão indicam que há um segmento das animações que não é feito para os pequenos: “Paranorm” e “Hotel Transilvânia” são temáticas dark pra uma criança curtir. “Piratas Pirados” constrói linhas de raciocínio que dificilmente crianças entenderão e toda sua “mise-en-scene” foge ao padrão frenético que pode animar sensivelmente a gurizada. Não os menosprezo, mas a gente sente a vibração de uma sala cheia de crianças e não os ouve rindo nas tiradas mais hilárias do filme.

Mesmo com seu enredo frouxo no todo, o filme tem algum fôlego até para críticas políticas. A crise mundial parece estar presente no momento em que o Capitão Pirata tenta assaltar vários navios, mas nenhum deles tem algum ouro que o ajude. A rainha britânica ganha cara de macaco no barco de Charles Darwin, personagem inusitado que surge na trama. O gostinho de “queremos mais disso” fica por ali e cresce a vontade de assistir o original, com Hugh Grant dublando o protagonista. Quero rever.

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