
Sobra genialidade pelas beiradas de BoardWalk Empire. Num único plano-sequência, Scorcese nos mostra o que é Atlantic City em 1920: Nucky Thompson (Steve Buscemi) chega a região dos bares e a câmera sobe pela grua mostrando uma banda; ela toca um clássico hino cristão em arranjo bastante alegre, enquanto alguns homens atrás erguem algo volumoso, cercado de flores; é um caixão, mas em forma de garrafa de whisky, que guardaria todas as nossas atenções não fosse a situação seguinte com quem se cruza: um casal empurra um carrinho de bebê cheio de garrafas de espumantes e whisky – com o filho no colo.
Scorcese, no primeiro episódio de Boardwalk, apresenta um mundo em formação. Os gangsters ainda não são tudo que vimos em outras narrativas (especialmente nos filmes). Isso porque o episódio mostra a virada na história de Atlantic City: dois dias antes e um depois da chegada da Lei Seca. O tal império não está caindo, mas apenas começando: é a descoberta da possibilidade de uma ambição ainda maior.
A classe do diretor não tem um roteiro totalmente à sua altura, mas ainda assim brilhante. Mesmo que tenha diálogos ótimos (“Nunca deixe a verdade atrapalhar uma boa história”) e o uso da ordem cronológica diferenciada até para se compreender bem a história, faltam alguns ajustes. Sempre é um problema traçar múltiplas histórias, com múltiplos personagens. Segurar tudo isso em termos de narrativa é um desafio e apresentá-los numa tacada só também é. Alguns, por exemplo, ficam muito em suspenso sobre seu passado, trazendo a sensação de que apenas têm obrigatoriamente que aparecer na premiere (como a grávida interpretada por Kelly Macdonald).
A série já está em seu 4º episódio e me cativou. O problema, porém, tem sido acompanhar seriados acima dos 20 minutos de coisas legais como The Big Bang Theory e How I Met Your Mother. Tento seguir em frente com Mad Men e Dexter, mas não consigo graças ao tempo curto. Boardwalk Empire é uma produção que talvez ganhe na disputa por ser uma minisérie. Veremos.
PS.: perdoem por não fazer nenhum tipo de conexão com The Sopranos. Eu sei que um dos produtores e roteiristas de Boardwalk é o responsável por este outro clássico da HBO, mas eu não vi nenhum episódio da série ainda.

Blogueirando há 12 anos, sou jornalista e aqui escrevo sobre cultura pop desde 2007. Trabalho, pesquiso e ensino no mundo das mídias digitais - leia-se: um nerd.
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