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O professor François Marin em "Entre Os Muros da Escola"

Um elefante no microcosmo

Enquanto a educação é a protagonista de Entre os Muros da Escola, é justamente a tensão que cumpre o papel de ser o antagonista. Este sentimento, mais que apenas uma camada possível no desenrolar do filme, é constante e latente. É por ele que a câmera realista de Laurent Cantet decide ser o que é. Como narrador-personagem, este olhar nunca está onde não pode estar. O cotidiano entre estes muros chega até a percepção do professor François Marin, mas nunca vai além do simples ato de mostrar (e isto é um mérito). Cantet surpreende justamente ao utilizar uma montagem bastante entrecortada para limitar esta observação, para não dar chance de ir onde um olhar comum não iria – e se há um efeito claro é a busca por fazer sentir o “sufocar” que esta tensão causa.

entreosmuros01Este sentimento não é simples. Cantet nos traz, numa pequena sala de aula francesa, um microcosmo que não exigirá do filme que se mostre algo além dele mesmo. A forma de vida, a personalidade, os anseios, frustrações dos alunos e daquele professor estão ali. Por mais óbvio que possa ser afirmar isso, é preciso que fique claro: esta aula de língua francesa é o mundo. Não por analogia que permita metáforas afins, mas apenas por ali estar a França de sempre: um mosaico de nações distintas, cujas tensões já foram exploradas com a mesma grandeza, por exemplo, em Caché (de Michael Haneke). Logo, não se trata de colocarmos a figura do professor Marin como metáfora da França, frente às suas diferenças e desigualdades (os alunos). Não. Todos ali são a França, em toda sua complexidade. Ninguém é mocinho ou vilão – esses papéis ficaram para os sentimentos e eles são personagens tão reais quanto os outros.

François Marin não é nenhum santo. Chega a ser irritante seu sarcasmo com os alunos e certas posturas são obviamente reprováveis. O modo como os trata vai do gentil ao prepotente em segundos. Ele consegue sabiamente valorizar suas diferenças, mas não sabe os tratar com a igualdade necessária que deve vir de um professor. Já os alunos, com as características óbvias dos adolescentes, não sabem ver com bons olhos o diferente, e logo fazem de Marin apenas mais um – o inimigo com aparentes boas intenções. Mais evidente do que os problemas entre ele e Souleymane ou Esmeralda, Cantet deixa claro que existe um elefante monumental dentro de cada sala desta escola, ocupando espaço, incomodando, mas não sendo notado. Seria evidentemente fácil tomar a postura de afirmar: este elefante é isto, ou aquilo. Mas como Gus Van Sant em sua obra-prima (também premiada com a Palma de Ouro e também sobre estudantes), Cantet apenas mostra e, mais que tentar responder, deixa que o microcosmo entre os muros se auto-questione naturalmente. Não nos força a nada e nós agradecemos a delicadeza.

Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet (França, 2008)
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes – 2008
Duração: 128 minutos.
Em cartaz Cine Bangüê (Espaço Cultural), sexta, sábado e domingo, às 18h30 e 20h30.
Ingressos: R$ 6 (inteira), R$ 3 (estudante).
Classificação indicativa: 12 anos

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