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Arnaldo Antunes

O não-rei do Iê Iê Iê

Arnaldo Antunes nunca foi um cara que conseguiu me cativar de verdade com sua música. Mas também nunca dei importância o suficiente ao seu lado musical a ponto de pegar um CD inteiro e ouvir com calma. Sempre me chamou anteção o seu trabalho como poeta de claras influências dos concretistas (cheguei a folhear algum livro seu). Eu gostava de ouvir “O Pulso”, dos Titãs, quando era adolescente – mesmo que não seja uma música lá muito alegre. O que me deixava empolgado era aquela poesia maluca sobre alguma coisa real mesmo.

Arnaldo Antunes - Iê Iê IêMas aí de repente o sr. Tiago Germano inseriu o álbum “Iê, Iê, Iê” em sua lista de melhores de 2009. Fico curioso ao saber que Catatau produziu o álbum e se você acompanhou algumas tuitadas, talvez se sinta confuso. Eu tenho sérios problemas em ouvir a banda do cara, Cidadão Instigado. Inclusive, o meu problema mais sério é com a voz dele – não consigo entrar na onda que o cantar meio tosco faz parte da proposta. Entretanto, mesmo não me agradando no quesito vocal e respeitando quem entra na onda, Catatau é evidentemente um grande arranjador e produtor. O álbum novo de Céu (Vagarosa), não é o que eu mais gosto de ouvir, por conta de alguns flertes com o reggae, mas tem algumas sutilezas bem interessantes, assim como no Uhuuu! do Cidadão. Não ouvi o elogiado trabalho com Otto, mas esse falatório todo é porque escutei e estou babando com o novo álbum de Arnaldo, produzido pelo mesmo Catatau.

O negócio todo está realmente resumido no título. Arnaldo resolveu fazer um CD realmente “iê iê iê”, como ele mesmo afirma no texto em seu site. O que quer dizer isso depois de ouvir o material? Que ele fez um álbum metalinguístico: em certos momentos ele tanto fará um rock acessível, como refletirá sobre o pop rasgado. Arnaldo sabe fazer refrões sem falar bobagem e isso é ótimo nos dias de hoje. Tem gente com medo de refrão, com medo do popular. Ele não tem esse temor e traz pérolas românticas e saborosamente grudentas como:

A casa é sua
Por que não chega logo?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora

A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio

O mais legal é justamente encontrar pouco a pouco, em audições mais atenciosas, as sutilezas de timbres, arranjos e backing vocals que foram elaborados para dar uma ambiência vintage a tudo isso. Afinal, um refrão como esse acima, sem a sonoridade da canção (daquelas que você estala o dedo e canta junto) seria pra lá de bobinho.

O segundo ponto alto do álbum é justamente seu lado dançante. Tanto a faixa-título e algumas outras ótimas como Aonde Você For e Envelhecer são ótimas para colocar pra tocar no carro e sair por aí – ou até mesmo animar a festa. A crítica deliciosa presente em Iê Iê Iê, foi escrita em mais uma parceria com Marisa Monte e Carlinhos Brown e está de olho nos bastidores do popular da música brasileira:

Eu sou mesmo um cara de sorte, cê não vê?
Ainda vou gravar um CD
Vou tocar no baile funk e no bufê
e vou ganhar meu próprio cachê

Úúú inteligente
Por que você não fala com a gente?
Úúú sensacional
Você tem uma família normal
Úúú interessante
Formiga enxerga tudo gigante

Depois de dois álbuns explorando seu famoso timbre bem grave e sonoridades mais calmas, Arnaldo retorna para um cantar mais rasgado, vibrante, acessível e sem perder a poesia. Um dos melhores CDs do ano passado que eu descobri esse ano.

Iê iê iê – Arnaldo Antunes
Rosa Celeste – 2009

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