Archive for December, 2009
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[Cinema] Maquiagem indie está na moda – leia a crítica de Ricardo Oliveira sobre ‘(500) Dias Com Ela’

(500) Dias Com Ela

(500) Dias Com Ela

(500) Dias Com Ela

Maquiagem indie está na moda

(500) Dias Com Ela (Marc Webb, 2009)é cheio de maquiagem, e daquela que no cinema de hoje em dia está bastante na moda: todos os tons possíveis de indie. Música legal conhecida por poucos, figurino cool e personagens desencantados com algum aspecto da vida. Summer (Zooey Deschanel) não acredita no amor; Tom (Joseph Gordon-Levitt) em seu talento como arquiteto. Os dois se gostam, namoram, terminam porque Summer é “a garota moderna e independente” e Tom, apaixonado, se desespera. Se desespera muito. Tudo isso numa ordem cronológica bagunçada desnecessariamente, faz o filme, a partir daí, se perder em mesmice e nas soluções confusas e rasteiras.

Seus poucos acertos, se resumem ao início do filme: apesar de toda a carga de “cinema indie”, faz com destreza a apresentação individual do casal. A caracterização dos personagens é divertida ao mostrar que Summer, por sua beleza, traz sucesso onde trabalha. Cenas belas como a conversa fora do bar, sobre “gostar ou não”, deixam gostinho de que o filme poderia ter mais daquilo e menos da pretensão de alcançar certo público, através de certos clichês.

Grande aposta que era para 2009, a estreia do diretor de videoclipes Marc Webb acredita que sugerir que “as estações mudam” é algum tipo de nova lição para os casais. Sabemos que não e nesse caminho tudo que temos ao final, é um rosto bastante maquiado, com muita pretensão de estilo e quase sem nenhum efetivamente.

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[Cinema] Sobre ‘estar’ e ‘ser’ – ou: uma análise do ‘Avatar’, de James Cameron, por Ricardo Oliveira

Jake Sully (Sam Worthington) em "Avatar", de James Cameron

O texto abaixo não trata-se de uma resenha de apresentação, cujo objetivo é dialogar com aqueles que desejam assistir o filme. O objetivo principal deste artigo é analisar certas perspectivas de Avatar, portanto, revelando detalhes que podem ser considerados ‘spoilers’.

Sobre ‘estar’ e ‘ser’

Mais do que sobre estar no espaço do outro, de forma permitida ou não, Avatar é sobre ser o outro. Acontece que essa percepção pode ficar resumida, em certo olhar, apenas ao enredo no qual vemos Jake Sully (Sam Worthington) estar, literalmente, na pele de um avatar humanóide da raça Na’ vi. Através de câmaras que permitem a vivência de uma realidade já não mais virtual (aquilo efetivamente está acontecendo), Jake descobre que “isto é ótimo”. Esta frase, junto a um olhar sorridente do próprio avatar, é emblemática porque revela, como aqui proponho apresentar, um olhar não apenas sobre a história de Avatar, mas sobre o cinema e tantos outros aspectos da vida na era cibernética.

“Tudo está de trás pra frente agora, como se lá fora fosse o mundo real e aqui dentro fosse o sonho”O processo cinematográfico é vertiginoso: um ator é convidado para representar um personagem num filme. Este personagem viverá 60% do enredo noutro corpo: um nativo do planeta Pandora, fotorrealisticamente modelado em 3D e elaborado digitalmente. O ator não está naquele corpo, mas projeta-se nele através de uma roupa com pequenos sensores por toda sua extensão, junto a outros que captam as mínimas expressões da sua face. Durante os outros 40% da história, o ator interpretará um humano como ele, exceto por um detalhe importante: é paraplégico.

É neste contexto que uma frase enfatiza o processo labiríntico: “Tudo está de trás pra frente agora, como se lá fora fosse o mundo real e aqui dentro fosse o sonho”. Mesmo que Jake esteja realmente vivendo quando está em seu avatar Na’vi, ele olhou para os primeiros instantes naquele corpo, como se vivesse um sonho – depois tudo se inverte. É assim que esse processo será descrito pelo líder do clã Omaticaya: os avatares são “caminhantes de sonho”. A frase de Sully e a expressão de Eytucan (o líder), não deixam de representar o que pode significar atuar, interpretar, estar no papel de outro. Atores caminham em sonho; espectadores entram no sonho de atores e se projetam na vida dos personagens.

O avatar de Jake SullyPara Sully, mais que apenas experiência, isso é oportunidade: lhe é prometida uma medula restaurada se ele conseguir informações sobre os Na’vi e ele poderá andar novamente. Todavia, no seu mundo de sonho (real), onde ele já é um Na’vi, ele anda; mais que isso: corre, pula, voa com a ajuda do seres alados com os quais estabelece conexões vitais, aqui colocadas frente a frente com as conexões cibernéticas entre homem e máquinas de destruição.

Diversos filmes já contaram a história do intruso que torna-se aliado e luta contra aqueles a quem antes defendia. A maioria das histórias fala justamente sobre as invasões do “homem branco” às terras indígenas em todas as américas. Em tantas obras, como no belo O Novo Mundo (Terrence Mallick, 2005), a figura do forasteiro em meio aos índios varia em seus significados. Há os dilemas de preconceitos da tribo, a ignorância do estrangeiro, o aprendizado, o tornar-se parte. Há, inclusive, a integração com a natureza, a relação do corpo com o habitat natural dos indígenas.

avatar-newphotosaug19-580-01O que James Cameron nos traz de novo aqui, é uma dimensão mais profunda na analogia da interpretação, dos duplos, do viver através de um corpo que representa algo intenso para os Na’vi. O que falta ao filme talvez seja a dimensão de contemplação que há na obra de Mallick, por exemplo. Diante de toda a estonteante beleza digital promovida por Cameron, num fotorrealismo absurdamente assustador, sua câmera não respira o ar de Pandora. Falta-lhe, em certos instantes, um andamento mais leve, mais cadenciado e harmônico à dinâmica desta rede que permeia o planeta e seus habitantes. Cameron filma Jake voando em seu ikran, descobrindo a beleza de Pandora, do mesmo modo como filma pilotos em seus helicopteros de guerra, preparados para destruir.

Enquanto Sully tenta ser um omaticaya legítimo, é importante não esquecer que há um Sam Worthington tentando representar ambos de forma crível. Suas expressões e trejeitos estão melhor representadas no corpo azul digitalmente elaborado de um Na’vi ou no corpo imobilizado por uma paralisia? A perfeição técnica do 3D de Avatar, em certos instantes nos fará esquecer que assistimos um espetáculo virtual. Em dois planos espelhados, enquanto os olhos de Jake Sully se fecham no primeiro, no último se abrem. Sua questão central, enfim, deixa de ser estar, para simplesmente ser. Agora ele pode Ver.

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[Cinema] Leia a crítica de Ricardo Oliveira sobre ‘É Proibido Fumar’, de Anna Muylaert

Glória Pires e seus cigarros em "É Proibido Fumar"

"É Proibido Fumar"

"É Proibido Fumar"

Os planos capturados pela câmera de Anna Muylaert parecem indicar sempre duas possibilidades. Há certa mise-en-scéne durante vários trechos que nos traz uma impressão certeira: como em O Pântano e A Menina Santa (de Lucrecia Martel) existe um desejo latente nos personagens. Baby, interpretada com vigor por Glória Pires, deseja um homem. Como ela mesma deixa claro, pouco importa se “para casar” ou não. Ela quer viver um amor e aguarda por isso. Enquanto não chega, ela é como um carro e o cigarro é seu cano de escape.

Ao saber da existência de Max (Paulo Miklos em evolução como ator), o desejo latente fica mais óbvio e cenas como a da padaria ganham vigor através de uma simplicidade assustadora. A câmera de Muylaert, em alguns belos instantes, não precisará de planos e contraplanos. Temos corpos e eles agem e reagem de acordo com suas expectativas, seus anseios. Inevitavelmente, suas fraquezas, seus limites, serão os impecilhos para que essa dinâmica flua mais ou menos. Assim, o filme de Muylaert também não deixa de ser sobre o toque, como revelado posteriormente na primeira cena do sofá – Max faz as mãos se cruzarem com certa força, como se afirmasse: “é isso que eu quero e eu sei que você quer”.

Esse cotidiano começa a ser comum ao espectador, fazendo com que, em determinados instantes, um simples movimento de travelling para direta ou para esquerda, nos leve a pensar que algo pode acontecer de forma inesperadaAcontece que, como em Durval Discos, a diretora trabalha com um cotidiano simples, sem muitos acontecimentos, mas com uma carga do que já aconteceu muito presente.  É deixando pistas sobre relações tortuosas com as irmãs (após a morte da mãe) e o aprendizado falho dos alunos de violão, que aprendemos mais sobre quem Baby é, sobre quem ela não é. Assim sendo, esse cotidiano começa a ser comum ao espectador, fazendo com que, em determinados instantes, um simples movimento de travelling para direta ou para esquerda, nos leve a pensar que algo pode acontecer de forma inesperada. Planos quase oníricos como a dança conjunta na festa; as insatisfações na relação amorosa com Max.

Porém, o que acontece se, em determinado momento, unimos o desejo latente ao inesperado? Já no começo da relação entre Baby e Max, ele pede “que ela fume mais pra lá” e em seguida sugere largar o vício. Apaixonada, Baby deixa o cigarro e a analogia do carro continua a fazer sentido: ela está colocando um tampão no cano de escape; e na dinâmica de Muylaert, a “fumaça voltar” quer dizer que uma bomba foi armada. Diante dos desdobramentos da relação, Baby viverá ao  mesmo tempo seu desejo e o inesperado. Após o acontecido, alguns espectadores dirão: era seu desejo; era o inesperado. Pouco importa. Na verdade, Baby e Max, até onde o filme nos permite ir, escolhem continuar no escape já que agora sentem-se livres. Acontece que um abismo chama outro abismo e é na beira deste segundo que Muylaert nos deixa, com bastante destreza.

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[Literatura] Leia a resenha de Ricardo Oliveira sobre ‘O Clube do Filme’, de David Gilmour

“Então eu disse a Jesse, ou melhor, repeti, uma coisa que tinha aprendido na universidade: que a segunda vez que vê uma coisa é na verdade a primeira vez. Você precisa saber como a coisa termina antes de poder apreciar sua beleza desde o início”. (O Clube do Filme, capítulo 3, página 50).

Esta citação é para mim a mais emblemática de O Clube do Filme, de David Gilmour. Livros que tem esse tipo de fala merecem lugar cativo na estante, mesmo que no todo eles tenham suas fragilidades, seus pequenos excessos. Um deles aqui, talvez seja por alguns momentos investir demais na descrição dessa relação tortuosa com o filho. Entretanto, é impossível culpá-lo afirmando isso categoricamente. Não posso. Estamos falando de um livro que é um diário aberto a público de uma história real e complicada.

David Gilmour e seu filho Jesse / Foto: George PimentelJesse, filho de Gilmour é um mau estudante que se interessa apenas por rap and chicks. Ele não gosta de escola. Gilmour tem a ideia maluca de dizer ao filho que ele não precisa mais frequentá-la se não quiser. Todavia, terá de assistir com o pai ao menos 3 filmes por semana. Todas as obras seriam escolhidas a dedo por Gilmour e esta seria toda a educação que o filho teria. Acontece que Jesse também é um apaixonado melancólico – desses que sofre desesperado quando perde a amada. Problemas com drogas surgirão e o dilema de Gilmour fica pior do que ele imaginava.

Capa do livro "O Clube do Filme"Os filmes que os dois assistem variam entre clássicos como Matar ou Morrer, Assim Caminha a Humanidade, coisas mais complexas da nouvelle vague, até chegar  ao que ele chama de “Prazeres Culpados” (filmes que ele sabe que são ruins, mas gosta mesmo assim), como Nikita – Criada Para Matar (1990) e Rocky III – O Desafio Supremo (1982). Entretanto, independente de qualquer filme, ao ler o livro você perceberá um fato importante: Gilmour, além de ter uma percepção acurada sobre como certas cenas se tornam antológicas, inesquecíveis, ele sabe como, sutilmente, fazer os filmes se conectarem com a vida.

Nesse caso, essas conexões por muitas vezes soam bastante óbvias na leitura. A tentativa de Gilmour é obviamente ensinar a Jesse mais sobre a vida através dos filmes. Ainda assim, em alguns capítulos isso se dará de forma mais sutil e exatamente aí que o autor acerta em cheio. É quando ele faz afirmações como aquela que abre esta resenha que atinge o auge de sua escrita em O Clube do Filme. Não são apenas filmes que precisam ser vistos duas vezes para entender sua beleza. Eis o belo deste livro, que além de ser um dos melhores guias para cinéfilos iniciantes, ensina bastante sobre o desafio de criar filhos.


O CLUBE DO FILME
David Gilmour (tradução: Luciano Trigo)
240 páginas
Ed. Intrinseca
COMPRE – R$ 19,90

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[Cinema] Confira a crítica de Tiago Germano sobre o documentário “Lóki – Arnaldo Baptista”

Fest Aruanda 2009

Arnaldo Baptista em "Lóki"

Quando eles voltaram em 2006, toda uma geração que não prestava muita atenção no que a mãe ouvia e tinha esquecido de ligar a MTV quando Kurt Cobain disse que a banda era “cool”, descobriu Os Mutantes.  Perguntas surgiram e o Google não soube responder: que espécie de mágoa Arnaldo Baptista sedimentou no coração de Rita Lee, que quase 40 anos depois do rompimento amoroso não aceitou retornar ao seu lugar no grupo e tachou os ex-colegas como um “bando de velhinhos tentando descolar grana para o geriatra”? Onde esteve Arnaldo Baptista desde sua frustrada tentativa de suicídio, quando se jogou da janela do quarto andar de uma clínica psiquiátrica depois de uma profunda crise depressiva? Afinal: quem era aquele homem, que carregava o legado do rock brasileiro nas costas e era unanimemente apontado pela crítica como um revolucionário?

Arnaldo Batista e sua esposa em "Lóki"Lóki – Arnaldo Baptista, filme exibido na segunda noite do Fest Aruanda e na sessão mobilizada do Box Cinemas da última quinta-feira, prometia as tão esperadas respostas àquelas questões. E se o documentário de Paulo Henrique Fontenelle não chega a resolvê-las satisfatoriamente, dá um grande passo ao pormenorizar a última: quem é Arnaldo Baptista? Lóki acerta logo de cara por apresentar o artista, sem tentar compreender a nudez de sua verdade (porque aqui a citação de Eça de Queirós se encaixa perfeitamente: a verdade de Arnaldo sempre esteve nua, apesar de escondida “sob o manto diáfano da fantasia”). Não há como não se fascinar pela sua figura, sempre num limiar de esplendor e abismo, oscilando dos estados mais banais e malucos aos mais trágicos e patéticos.

Quase melodramático

Verdade seja dita, Lóki beira o melodramático. Nesse sentido, ele tem um empurrãozinho do irmão e colega Sérgio Dias, que compara Arnaldo Baptista a Van Gogh (quando, como arte, sua pintura é uma boa terapia); de Lobão, que diz que “Lóki” é um disco “pungente, um dos melhores da MPB” (quando na verdade ele não é tudo isso, apesar do piano virtuoso);  e de Devendra Banhart, que diz que Os Mutantes são melhores que os Beatles (o que não vale ser comentado). Noves fora, é um grande filme que provavelmente mereceu todos os júris populares que conquistou em festivais, como a 32ª Mostra Internacional de São Paulo e o Festival do Rio.

Imerecida é a lacuna deixada por Rita Lee, que se recusou a dar depoimentos para o filme, concordando apenas em autorizar o uso de imagens de arquivo e de gravações das quais ela participou na época dos Mutantes. Rita priva o filme da sua versão de fatos controversos como a sua saída da banda e o fim de seu casamento com Arnaldo Baptista. Quanto ao primeiro, Lóki desmente uma versão do próprio Arnaldo, que por ocasião do seu retorno em 2006 afirmou em várias entrevistas que tinha “mandado a Rita embora” dos Mutantes. No documentário, tanto os irmãos Baptista quanto o baixista Liminha e o baterista Dinho Leme afirmam categoricamente que a decisão partiu de Rita, descontente com o rumo progressivo da música e com a instabilidade do matrimônio. Quanto a este fato, nenhuma versão consistente é dada nem por Arnaldo, que não esconde ainda um amor inescrutável por sua primeira esposa (a semelhança com a atual chega a ser constrangedora).

Canal Brasil

Lóki – Arnaldo Baptista é o primeiro longa-metragem produzido pelo Canal Brasil, um dos apoiadores do Fest Aruanda. O documentário foi lançado em DVD no final de novembro e tem também as participações (menos parciais…) de Nelson Motta, Tom Zé, Gilberto Gil e Sean Lennon. Para fãs dos Mutantes, de Arnaldo Baptista e de uma cinematografia recente que, a exemplo de Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, tem se empenhado em arranjar histórias cujo valor realmente justifiquem serem contadas nas telonas.

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[Cinema] Leia a bela crônica de Tiago Germano sobre o doc. ‘O Milagre de Sta Luzia’

Fest Aruanda 2009

Pinto do Acordeon em "O Milagre de Santa Luzia"

Sérgio Roizenblit apresentou “O Milagre de Santa Luzia” em noite que teve até palhinha de Pinto do Acordeon

Das cinebiografias trazidas pelo Fest Aruanda (e este ano o pacote foi gordo: de Lula, Filho do Brasil, que abriu o festival na segunda, a Herbert de Perto, que fechará a programação, no sábado), O Milagre de Santa Luzia talvez seja a que escolheu filmar o personagem mais complexo. Tão popular quanto o nosso presidente, tão ou mais importante para a música brasileira quanto o líder dos Paralamas, o biografado em questão se valeu do prestígio e só concordou em se pronunciar na presença de figuras ilustres como Dominguinhos, Sivuca, Patativa do Assaré, Renato Borghetti e Toninho Ferragutti. Sua intimidade com estas personalidades era desconcertante e cada um que lhe conhecesse por um apelido: sanfona, oito baixos, fole, gaita, pé de bode…  Também cada um que lhe cumprimentasse de uma maneira diferente: os nordestinos, manhosos; os sulistas, hiperativos. E tudo foi história para Sérgio Roizenblit (presente quarta-feira no festival), que com seu documentário nos apresentou a estrela da hora – não Marcélia Cartaxo, mais tarde homenageada pela organização do evento – mas o acordeão.

Dominguinhos em "O Milagre de Santa Luzia"O instrumento entrou no Hotel Tambaú escoltado por Pinto do Acordeon, que o leva “encangado” até no nome. O músico deu uma palhinha na abertura da noite e foi responsável por uma das passagens mais marcantes do documentário, quando conta uma anedota envolvendo a música “New York, New York” (numa versão engrolada já conhecida do público através do vídeo de divulgação no Youtube). Outro mestre da sanfona, Dominguinhos, está para O Milagre de Santa Luzia como uma espécie de cicerone, conduzindo a equipe de filmagem por regiões em que o acordeão, mais do que atuar como expressão artística, inaugurou profusas e diversas tradições culturais. Reuni-las é o ponto forte da produção, que só vacila em sua passagem pelo Sudeste, onde poderia retratar melhor o mimetismo do instrumento às culturas dos imigrantes italianos, árabes e japoneses. A cultura dos “retirantes” já está devidamente representada pelo próprio Dominguinhos, que dá um tom emocional ao documentário nas duas vezes em que chora debruçado no fole da sanfona, ao se lembrar de quando deixou Pernambuco e migrou para São Paulo, em busca do Eldorado artístico.

De resto, O Milagre de Santa Luzia pode ser definido pelas mesmas palavras com que, em certo momento do longa, um dos produtores musicais entrevistados por Roizenblit identificam o som da sanfona: um misto carinhoso de dor, saudade e doçura, que certamente honra a memória de Luiz Gonzaga – o tal “milagre” que nasceu no dia de Santa Luzia, sagrou-se rei do baião, e não poderia deixar de ser homenageado pelo filme.

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[Cinema] Comentários e cotações da primeira noite da mostra competitiva do Fest Aruanda

Fest Aruanda 2009

Curta "Maresia"

Primeiro dia da mostra competitiva de curtas.
Cotações de zero a 5 estrelas.

Meditação de Carnaval (RJ)

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Refletir sobre o carnaval sem incorrer em falsas epifanias como “por alguns dias as pessoas podem ser o que elas quiserem” era o verdadeiro desafio do curta da diretora Ana Costa Ribeiro. E aquele foi apenas um dos muitos clichês que prejudicaram sua boa proposta: a de narrá-lo sob a perspectiva de alguém que volta ao país depois de uma temporada no exterior. Por outro lado, o filme cativa com suas imagens de arquivo – elas sim captam a poesia que as entrelinhas do texto deixam escapar.

Popokas (SP)

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Sua estética publicitária e humor nonsense renderam a plateia, simpática a um tipo de linguagem predominante em alguns “vídeos do minuto” exibidos antes da mostra. Detalhes como a placa “Gerundismo não!”, na central de telemarketing, e o diálogo entre os protagonistas, num francês de bistrô, são fruto de um roteiro às vezes previsível, mas cheio de boas ideias.

A Terra a Gastar (SP)

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Aqui o que há são boas intenções. A animação quer passar a mensagem de que o planeta precisa ser salvo e só será com a cooperação de todos. Entendemos a mensagem, percebemos o seu valor, mas a didática amordaça o curta com uma paródia um tanto canhestra de “A Velha a Fiar”.

Garoto de Histórias (PB)

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“Fazer história” é o código usado por um dos garotos entrevistados para combinar seus programas em público, ao telefone. Documental, o filme peca por sua montagem, que intercala os depoimentos dos garotos com imagens de dançarinos da noite. Os efeitos aplicados a estas imagens não servem de incremento estético, mas incomodam por seu ar rudimentar e por causar um fetiche inoportuno em torno do universo da prostituição. É uma sutil incoerência diante do tom geral do curta, que tenta recuperar a dignidade de personagens à margem da sociedade.

Maresia (RS)

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Outro tema delicado, o estupro, ganha contornos ficcionais nesta produção que seduz por sua atmosfera p&b, pelo seu silêncio e por suas imagens carregadas de sentido. A associação entre a caneca e a banheira transbordando é intrigante e tensiona a narrativa, repleta de sugestões.

Aprendiz (SP)

*

O curta em 3D de Marcio Kakuno é gracioso, porém ingênuo. Nada contra as animações, mas esta não era, definitivamente, a noite do gênero.

Derréis na Tampa da Lata (PB)

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Há quem faça samba na caixinha de fósforo. Dérreis, figura folclórica do sertão de Patos, discípulo de Jackson do Pandeiro, faz numa lata. Tipo de curta que ganha por seu personagem central: falastrão, mulherengo, Derréis conquista qualquer público.

O Muro (PR)

***

A confusão com o homônimo pernambucano, premiado em Cannes ano passado, gerou uma certa decepção ao final desta história. Nela, dois garotos separados por um muro se divertem jogando uma bola um para o outro. “E assim nasceu o vôlei”, sugeriu alguém da plateia. Se não suscitou uma boa crítica, suscitou uma boa anedota e por isso já deve ser considerado.

Série. EM. Série, Histórias que se Repetem (BA)

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“A rotina é como as páginas de um livro: sozinhas podem não dizer nada, mas juntas nos contam histórias”. A premissa é boa, mas o filme foge dela à medida que algumas das (poucas) histórias contadas vão se prolongando e cansando o espectador. O transitório, que está bem trabalhado no caso do operador de fotocopiadoras ou do caixa de supermercado, não está tão bem delineado no caso do açougueiro e do vendedor de rua.

Um Conto de Solidão (SP)

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Pros que gostam de finais surpreendentes que justificam rodeios narrativos e conduzem o espectador a um destino que não é exatamente aquele que ele esperava.

éliaOFF (PB)

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A videodança encanta por sua coreografia subaquática e pela originalidade dos takes, que fogem dos planos mais óbvios. Não chega a esmiuçar o corpo tão bem quanto “Súbito”, outro raro exemplar de um gênero que nos chegou através das sessões do Assacine, mas essa talvez não tenha sido a intenção do curta, cujo atrativo visual está mais voltado para a poética de gestos e movimentos.

A Medida do Quilômetro (PB)

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Louvável como registro etnográfico da comunidade quilombola, mas frágil como documentário. O epílogo explicativo do curta é dispensável, e nada melhor que os aplausos antes dele para indicar isso. Uma obra que se explica ou cai na redundância ou deixa patente o grave problema de não se sustentar sem uma pista para o espectador, que fatalmente se sentirá subestimado.

1500-Circular (PB)

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O ônibus é o set de filmagem deste curta que acompanha o dia a dia de motoristas, cobradores e passageiros da linha circular que atravessa 23 bairros da capital paraibana. A câmera é precisa desde o seu embarque no coletivo, quando o flagra acima de sua lotação, num típico fim de tarde pessoense. Este recorte, porém, dá lugar a outro mais prosaico e o filme perde a oportunidade de lançar um olhar sobre o problema do transporte público da cidade.

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