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Através de um diarista que trabalha em sua casa, o professor e documentarista Bertrand Lira conheceu a história de Clóvis Bernardo, um pastor evangélico da Igreja Assembleia de Deus Missão, no Altiplano. Nenhuma novidade, não fosse o fato de Clóvis ser um ex-travesti convertido ao cristianismo, acreditando ter como propósito de vida converter outros homossexuais à sua fé.

O Rebeliado é o documentário de Bertrand sobre a vida Clóvis, um trabalho que durou 3 anos e será lançado hoje à noite no Cine Banguê às 20 horas, com entrada franca. Bertrand e Clóvis conversaram com a reportagem do JORNAL DA PARAÍBA sobre o filme que traz depoimentos do pastor, além de seus familiares e membros da igreja.

Bertrand Lira revela que a história contada por sua diarista o empolgou ao ponto de combinar uma visita ao culto da igreja no dia seguinte. “Depois da aprovação dele, nos encontramos um dia depois e já levei a câmera para fazer os primeiros registros do culto”, conta o documentarista.
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O pastor Clóvis Bernardo.
Tendo uma infância cheia das lutas dos centros urbanos, passando por mendicância e prostituição de rua, Clóvis tornou-se o travesti conhecido como Anastácia. “Com a auto-estima abalada por esses sofrimentos, ele chegou até esta nova escolha, de seguir uma religião”, afirma Bertrand. O diretor lembra, entretanto, que o seu filme não é uma apologia ao caminho traçado pelo pastor. Na verdade “o documentário tenta explicar como uma pessoa chega até estes extremos”, argumenta o documentarista.

Para Clóvis, o trabalho na verdade mostra o milagre que aconteceu em sua vida. “É uma oportunidade de mostrar a minha história, sem parecer algo montado ou falso”, diz o pastor. Bertrand conta que seu trabalho não pretende dar uma visão fechada sobre o assunto, deixando as escolhas finais para o espectador. “O público é que tomará uma decisão sobre a história de Clóvis, apoiando sua ideologia ou não”, afirma o diretor.
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Clóvis Bernardo e o diretor Bertrand Lira.
Durante a produção, Bertrand inscreveu o projeto no Fundo Municipal de Cultura, sendo contemplado com um orçamento de R$ 20 mil. Além de financiar o trabalho, também foram prensadas 1.000 cópias em DVD do filme, que estarão disponíveis para compra no lançamento. Duzentas destas cópias foram entregues como contrapartida pelo financiamento municipal e estarão disponíveis para instituições e organizações não-governamentais.

O título O Rebeliado é uma referência ao início da fé de Clóvis, na primeira igreja onde frequentou. Os pastores que o lideravam não concordavam com algumas posturas ousadas do ex-travesti, que cedo já pregava pelas ruas, ainda com o corpo afetado por hormônios e silicone. Por desentendimentos, acabou sendo chamado de “rebeliado” por eles. “Foi difícil convencê-lo a usar este título para o filme, já que trata-se de algo muito forte e doloroso para Clóvis”, lembra Bertrand.

O filme tem 70 minutos de duração, com produção executiva de Heleno Bernardo e auxílio de ex-alunos do curso de Rádio e TV da UFPB. As muitas horas de filmagem resultaram no registro de muitas histórias curiosas. “A partir de tudo que captei, planejo realizar um longa de ficção, que será o meu primeiro trabalho nessa linha além dos documentários” declarou o diretor.

O trabalho de Bertrand procura traçar um panorama do neo-pentecostalismo brasileiro, em meio aos preconceitos que surgem entre religião e sexualidade. A proposta, segundo o diretor, é revelar o cenário de desigualdade social e machismo que, tantas vezes, revela histórias como a do pastor Clóvis.

Matéria de capa que fiz para o caderno Vida & Arte do Jornal da Paraíba de hoje.

Ricardo Oliveira

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