Se já era de algo surpreendente a escolha de Beirut e Black Sabbath para o trailer da minisérie, imagine então assistir ao primeiro episódio com Jimi Hendrix fazendo a trilha inicial? Foi assim que Capitu começou ontem à noite.
Havia um vigor óbvio nas primeiras imagens que me deixou bem empolgado. A escolha anacrônica de colocar Bentinho em um trem carioca ao invés do bonde, não seria apenas casual, mas definitiva. Toda a primeira cena do livro tornou-se a primeira cena para o episódio e o anacronismo rompeu barreiras: apenas Bento e o poeta ao seu lado estão em trajes da época, enquanto todos os outros passageiros são contemporâneos, exatamente como nós, que assistimos a tudo aquilo. Ora, não apenas nós somos “de hoje”, mas o suporte televisivo também, daí a escolha do trem e não de um bonde. “Lemos” e “assistimos” Dom Casmurro numa televisão, e não em um amontoado de papéis cortados, costurados e com letras impressas. A fusão de diferentes tempos já não é gratuita. Nesse caminho então nos deparamos com excelentes soluções visuais que brincam com essa diferença temporal. Quando dos elogios de Bentinho ao poeta, ele afirma que o rapaz se sentiu como a pessoa mais importante do momento. Um belo e engraçado plano cheio de cortes aparece com o artista sendo fotografado com câmera digitais e celulares – propício.
O uso do narrador pontuando as passagens entre cenas está bem executado, porém, o recurso das cartelas dividindo os capítulos em títulos junto a uma voz “engraçadinha” talvez seja desnecessário. Claro que há o mesmo recurso no livro e, muitas vezes, os capítulos são curtos na obra de Machado, porém, o tempo audiovisual é outro e a capacidade de esculpí-lo é uma arte tão trabalhosa quanto a da escrita. Luiz Fernando tem essa destreza e consegue um ritmo bastante peculiar. Quando achamos que vamos imergir completamente ao andamento teatral, ele nos corta com flashbacks, com projeções, intervenções do narrador Michel Melamed. Tudo isso somado ao bom gosto de planos que ressignificam a mise-en-scene – que diferença faz quando assistimos a discussão sobre Bentinho ir ao seminário, percebendo que ele em sua infância e velhice observa a cena? Um personagem dividido em dois, para as mesmas situações, gera dois olhares? Quem conta essa história?
Ao fim, o resultado foi extremamente positivo, apesar da queda quase brusca no último trecho que, comparado ao primeiro, perde consideravelmente o ritmo. Quem o segura é a bela e ótima atriz que interpreta Capitu menina. Mas, óbvio que o diretor precisava disso ao começo: se fazia necessário prender a audiência do Casseta & Planeta que ainda estava plugada.
Acredito que o uso do anacronismo na série é uma grande sacada se bem utilizada e se o diretor não virar refém dela, mas visitá-la, reinterpretá-la e usá-la com prudência. No mais, vamos curtir porque isso aí é TV de qualidade.
Vale lembrar que todos os dias os episódios do dia anterior serão disponibilizados na web, no site da minisérie.
Ricardo Oliveira
Ricardo,
Ótima análise, copiei no meu blog.
Abração!
tive as mesmas impressões sobre Capitú,
mesmo não entendendo bem os “meandros” da produção. a trilha é no mínimo audaciosa…
é deitar e rolar nessa maravilha de trabalho. pena que pouco complartilhado já que a audiência cai vertiginosamente após o Casseta (que faz jus ao nome).
abraços
Excelente texto, Ricardo. Boas observações. =D
Essa microsérie vem corroborar com aquela máxima que diz que aqui no Brisil nós temos a MELHOR e a pior televisão do mundo.
Quanto a audiência, foi péssima. A Record atingiu a liderança por 25 minutos não consecutivos e, no resultado final, empatou com a Globo em 17 pontos*. Durante a apresentação de Capitu a TV do Bispo exibia (mais uma) novela.
Acho que deve ser incluído naquela máxima que nós também temos os melhores e PIORES espectadores do mundo também… é uma pena!
Muito bom tb saber desse link, pq amanhã não poderei ver. Ou melhor, não poderia. Valeu!
Abração!
*cada ponto corresponde a 55,5 mil domicílios na grande São Paulo, referência para o mercado publicitário.
[...] 1. A trilha sonora realmente foi a outra importante escolha de anacronismo. Não é novidade termos tais escolhas, ok? Basta lembrar de casos mais comportados como em novelas de época que ouvimos canções românticas contemporâneas, ou mesmo numa referência importante para a série (direta ou não) que é aquele baile do filme “Coração da Cavaleiro” onde alguns séculos atrás o pessoal dança Golden Years do David Bowie. Só que ali parecia haver um interesse estranho, de se conectar a uma cultulrapop e tudo ficou meio estranho apesar de engraçadinho. Já em Capitu, trata-se de uma escolha ampla, que tem a ver com todo o contexto de conexões entre passado e futuro por conta das diferenças temporais entre o espectador e a obra, assim como também do narrador e sua história (em nível diferente, claro). O que há de essencial então, no uso de uma trilha sonora contemporânea, mesclada a toques eruditos? Luiz Fernando faz uma escolha pela ressignificação que ultrapassa tempos. A grandeza de qualquer obra-prima literária é o fato dela ser universal e atemporal. Por consequência, teremos então músicas que ouvimos hoje em dia e que tem a ver com a história de ontem que lemos hoje e se conecta com o agora – e não apenas com o século 19. A música é um dos elementos que evidencia isso. Escolhas de cenário também, como vimos no post anterior. [...]