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Houve, durante certo tempo, em minha cabeça o desejo de que fôssemos todos iguais. Era uma vontade imatura no começo da fé. Ainda bem, durou pouco tempo. Descobri, pelas estradas, que uniformidade não é bem um plano da eternidade.

É possível pensar, a respeito disso, em dois planos: o essencial e o não-essencial. De fato, na vida de seguir os passos de Cristo e de conviver com pessoas que buscam o mesmo, podemos dividir as coisas assim, quando falamos sobre “diferenças”. Entre todos esses, é fácil pensar que temos diferenças no não-essencial. Porém, as coisas se complicam quando divergimos na essência.


Simples: você gosta de música pop e eu de rock; prefere acreditar no milênio do Apocalipse e eu acho que ele é uma metáfora; você gosta de praia e eu de campo; você não acredita em dons espirituais e eu, sim. A questão é se na essência, somos iguais.


Ora, considero a essência talvez o texto-chave dos evangelhos. Certa vez perguntaram a Cristo qual era o mandamento mais importante, ele afirmou: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Nos ‘finalmentes’ de sua jornada como homem, deixou a outra parte da essência: ir por todo mundo e pregar o evangelho a toda criatura. Se pudéssemos juntar esses dois textos (essa construção foi elaborada por Rick Warren nos seus livros dos propósitos), teríamos o essencial do cristianismo, que, conseqüentemente, poderia se resumir num verbo. Amar.


Se divergimos em denominações, estilos, gostos, formas, estéticas, ficamos bem, até certo ponto. Mas, se divergimos na essência, ficamos bem também? Algo errado aí. Divergir na essência tem a ver com não estar no propósito de Deus. Um grupo de pessoas que não anda em amor [aqui, abstraia e pense tanto em essência como no 'andar em amor' citado no Novo Testamento] não compreenderá a virtude de conseguir andar com o diferente e conviver bem, graças à essência.


A questão maior, e a que sempre parece complicar esse dilema, é quando falamos em analisar-exortar-protestar. Olhar para a pessoa do lado, crer que ela está errada (a partir de um valor bíblico) e, em amor, exortá-la, hoje em dia trás das duas uma: levar um fora com a falsa-desculpa de que somos diferentes e devemos nos respeitar, ou uma aceitação e fica tudo bem. Mas, e quando falamos de um grupo inteiro?


Atualmente, podemos perceber que existem muitos grupos afirmando-se como cristãos e que, possivelmente podem trazer “a paz desejada através de uma vida de fé e fidelidade ao Senhor através dos dízimos e sacrifícios”. Se passar a considerá-los como em situação complicada perante a essência, como trazer a exortação? Como trazer o protesto (aqui, no sentido de protestantes). Ora, há séculos atrás, Lutero trouxe seus questionamentos a um determinado grupo; ousou, subverteu e conseguiu alcançar os objetivos que Deus trouxe ao seu coração. Mas vale lembrar uma questão importantíssima: não era uma época de pós-modernidade, ‘fim das utopias e verdades absolutas’. Hoje, até mesmo nós como cristãos temos vivido cegamente (e não aproveitando apenas o que há de bom) sob este princípio.


Quando então chegamos e exortamos que algo está errado, levamos a resposta que qualquer pessoa atualmente pode dar: “você pensa assim, eu, não”. Sempre que penso sobre isso, vem na minha mente a palavra dialética; Dois lados de um fato que sempre nos levam a ficar no impasse. Isso se fortaleceu bastante através da chamada pós-modernidade, porém, é princípio extremamente antigo.


A questão que fica é:


- Como viver a dialética das diferenças exercendo a essência do cristianismo sem deixar com que as coisas desandem bem debaixo do nosso nariz?


Fico por aqui e deixo o espaço dos comentários para batermos um papo.


Abraço’s
Semcor.

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  1. Pedro (Reply) Em 16 de January de 2007

    Semcor, você tocou numa questão chave. Nós vivemos num sociedade pós-moderna, regida por uma cosmovisão humanista, onde o certo e errado são basicamente definidos pelas circunstâncias e por experiências passadas. O absoluto vai gradualmente perdendo espaço para o nosso relativo, que vai tirando o valor essencial das coisas. Por isso, o que tem acontecido muitas vezes é que “eu” é que decido o que é essencial. Usar saia abaixo do joelho é essencial, pregar com um paletó é essencial, mas não alimentar um faminto as vezes não é tão comodo no momento a caminho da igreja então deixa de ser circunstâncialmente essencial. Relativisamos o que é absoluto para que se molde ao meu gosto.

    Conclusão, muito dos pontos em que somos diferentes derivam de nós mesmos e de nosso orgulho. A verdade é que nos julgamos melhores, ou mais santos do que uns aos outros.

    Parabens Semcor pelo texto! um Abraço!

    Pedro

  2. susi (Reply) Em 16 de January de 2007

    Você usou duas das minhas palavras preferidas: dialética e diferenças. O discurso sobre a pós-modernidade também gosta delas. Mas se é que estamos vivendo numa era “pós-moderna”, não compreendo o relativismo como sua característica principal (e problema), mas sim o individualismo.

    ei, como tu diferencia essência e base?

    parabéns pelo blog!